Bilhão em vendas, luxo internacional e denúncia de trabalho escravo em Florianópolis: o caso que chocou SC

Mulher etíope foi resgatada após denunciar jornadas das 7h às 22h30 em condomínio fechado no Rio Tavares; Ministério Público do Trabalho firmou TAC e Polícia Federal segue investigando

Por Zebrinha Richartz 23/05/2026 - 10:31 hs

Um caso envolvendo luxo, ostentação internacional e denúncia de trabalho análogo à escravidão colocou Santa Catarina no centro de uma investigação que ganhou repercussão nacional. A situação ocorreu em um condomínio fechado no bairro Rio Tavares, no Sul da Ilha, em Florianópolis, onde uma mulher etíope teria sido submetida a condições degradantes de trabalho enquanto atuava como empregada doméstica para a família de um corretor de imóveis ligado ao mercado internacional.

Nas redes sociais, a rotina exibida era de viagens internacionais, negócios milionários e imagens em Dubai, um dos mercados imobiliários mais valorizados do mundo. Segundo divulgações públicas do próprio corretor, o volume de vendas ultrapassaria a marca de 1 bilhão de dólares em negociações imobiliárias.

Por trás da imagem de sucesso, no entanto, autoridades trabalhistas apuram um cenário completamente diferente.

De acordo com informações oficiais do Ministério Público do Trabalho em Santa Catarina (MPT-SC), a trabalhadora, uma mulher etíope de 34 anos, foi trazida ao Brasil após ter conhecido os empregadores em Dubai. Ao chegar em Florianópolis, ela teria passado a viver em condições consideradas análogas à escravidão.

As investigações apontam que a vítima cumpria jornadas extremamente exaustivas, trabalhando diariamente das 7h às 22h30, sem descanso semanal regular, realizando tarefas domésticas e cuidando da casa e da família.

Além da carga excessiva de trabalho, há relatos de retenção de documentos, isolamento social, restrição de liberdade e violência psicológica. Segundo os órgãos de fiscalização, a mulher também enfrentava dificuldades de comunicação por não falar português e estaria em situação de vulnerabilidade dentro do país.

Segundo o relato apresentado às autoridades, a trabalhadora conseguiu fugir da residência durante a noite levando apenas o celular e algumas roupas. Sem conhecer a cidade e sem dominar o idioma, utilizou aplicativos de tradução para pedir ajuda até conseguir chegar às autoridades.

Após a denúncia, equipes de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego realizaram o resgate da trabalhadora. O caso passou então a ser acompanhado pelo Ministério Público do Trabalho e também pela Polícia Federal, que apura possíveis crimes relacionados a trabalho análogo à escravidão e tráfico internacional de pessoas.

Recentemente, os investigados assinaram um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o MPT-SC. Pelo acordo, houve reconhecimento de obrigações trabalhistas e pagamento de indenizações à vítima. O TAC, porém, não encerra a investigação criminal, que continua em andamento.

O caso provocou forte repercussão nas redes sociais e reacendeu o debate sobre exploração de trabalhadores imigrantes, desigualdade social e os limites entre riqueza, poder e dignidade humana.

O contraste entre a ostentação exibida publicamente e as denúncias envolvendo violações graves de direitos humanos gerou indignação e levantou questionamentos sobre a realidade escondida por trás de algumas imagens de sucesso nas redes sociais.

Enquanto o processo segue avançando na Justiça, a ocorrência se torna mais um alerta sobre a importância da fiscalização trabalhista e do combate ao trabalho escravo contemporâneo no Brasil.

Foto: Redes Sociais